
Se trabalhasse na cozinha de Anthony Bourdain, o lendário chef de Brasserie Les Halles, certamente não se atreveria a, sequer, ferver água sem comparecer a um ritual, essencial para qualquer chef que se preze: o mise-en-place.
O ‘Meez’, como os profissionais lhe chamam, traduz-se em qualquer coisa como ‘tudo no seu lugar’. Na prática, trata-se de estudar uma receita, pensar nas ferramentas e equipamentos que vão ser necessários, e reunir os ingredientes, na proporção certa, antes de começar. É a fase de planeamento de qualquer refeição – o momento em que os chefs avaliam, na sua totalidade, aquilo que vão tentar alcançar e criar, uma espécie de plano de ação para a refeição.
Para o chef experiente, o mise-en-place representa mais do que uma prática excêntrica ou uma técnica de economia de tempo. É um estado de espírito.
O Mise-en-place é a religião de todos os bons cozinheiros. O estado de arrumação de uma cozinha é, nada mais, nada menos, do que uma extensão do sistema nervoso do cozinheiro… O universo está em ordem, quando cozinha está organizada.
Chefs como Anthony Bourdain há muito perceberam que, quando se trata de cozinha excecional, o ingrediente mais importante de qualquer prato é o planeamento. É o “Meez” que força Bourdain a pensar mais à frente, que o salva de ter que procurar os itens a meio do processo de cozinhar, e que lhe permite canalizar toda a atenção para o prato que está a ser preparado.
A maioria das pessoas não trabalha em cozinhas. Não interage com os ingredientes que devem ser reunidos, preparados, ou medidos. No entanto, o valor de aplicar uma abordagem semelhante e, deliberadamente, tirar algum tempo para planear antes de começar é, sem dúvida, muito grande.
Qual é a primeira coisa que faz quando chega à sua secretária? Para muitos, ver o e-mail ou ouvir o voicemail é praticamente automático. Pois fique a saber que estas estão entre as piores maneira de começar um dia. Ambas as atividades ‘sequestram’ o foco de atenção e colocam a pessoa num modo reativo, onde as prioridades dos outros tornam-se o mais importante. Este processo é o equivalente a entrar numa cozinha e procurar alguma coisa entornada para limpar, ou então uma panela para esfregar.
Uma melhor abordagem é começar o dia com uma breve sessão de planeamento. Um mise-en-place intelectual. Pergunte a si mesmo esta questão, no momento em que se sentar na sua secretária: O dia terminou e eu estou a sair do escritório com um tremendo sentimento de realização. O que é que eu alcancei?
Geralmente, este exercício é eficaz a ajudar as pessoas a distinguir entre tarefas que simplesmente parecem urgentes daqueles que são verdadeiramente importantes.
Então – e isto é importante – crie um plano de ataque para dividir as tarefas complexas em ações específicas.
Para começar, deve iniciar cada item da sua lista com um verbo, o que é bastante útil, uma vez que torna as intenções mais concretas. Por exemplo, em vez de listar “apresentação de segunda-feira”, identifique cada item de ação que a criação de apresentação de segunda-feira vai envolver. Assim, na sua lista vai constar: recolher dados de vendas, elaborar o projeto de slides, e incorporar imagens. Ter cada etapa planeada com antecedência, vai também minimizar o pensamento complexo ao final do dia, e diminuir a procrastinação.
Finalmente, priorize a sua lista. Quando possível, comece o dia com tarefas que exigem mais energia mental. Pesquisas indicam que temos menos força de vontade à medida que o dia avança, por isso, é melhor lidar com itens desafiantes – particularmente aqueles que requerem mais foco e agilidade mental – no início do dia.
O exercício completo demora menos de 10 minutos. No entanto, é uma prática que rende dividendos significativos durante todo o dia.
Ao começar cada manhã com uma sessão de mini-planeamento, você pode antecipar decisões importantes para um momento em que a sua mente ainda está fresca. Também notará que, ter uma lista de itens de ação concretos, (em vez de uma ampla lista de objetivos) é especialmente valioso no final do dia, quando a fadiga se instala e o pensamento complexo é mais difícil de alcançar.
Agora, já não precisa de parar e pensar em cada etapa. Em vez disso, e tal como um grande chef, pode dedicar toda a sua atenção à execução da tarefa.
Adaptado do artigo da autoria de Ron Friedman publicado em www.hbr.org dia 19 de junho de 2014