Um texto recente resume o trabalho do “Center for Positive Scholarship”, da Universidade de Michigan, sobre os caminhos para a criação de organizações positivas. Uma organização positiva não é uma inexistência. Organizações positivas são aquelas que cultivam de forma sistemática e holística as forças coletivas, com uma orientação humanista e capaz de reforçar a competitividade, o ensejo de melhoria e a contribuição para a criação de sociedades mais justas e inclusivas. Quais os caminhos identificados pelos investigadores do “Center for Positive Scholarship”?
O primeiro consiste em focar a organização naquilo que pode ser feito e não naquilo que não pode. Esta é a essência de uma ética positiva: a ativação de processos empoderadores como a generosidade, a compaixão e a gratidão, colocados ao serviço de objetivos dignos de serem alcançados.
Segundo: instilar um sentido de propósito comum nas tarefas e projetos organizacionais. Explicitar o modo como aquilo que fazemos tem um impacto positivo nos outros.
Terceiro: dar às pessoas liberdade estruturada. Liberdade sem estrutura gera descoordenação e confunde. Mas estrutura sem liberdade aliena. Combinar estrutura e liberdade não é fácil, mas é um bom caminho.
Quarto: reforçar a qualidade das ligações. Cada um de nós pode fazê-lo. Por exemplo, escolhendo ajudar os outros em vez de esperar que sejam os outros a ajudar-nos. Os líderes servidores oferecem bons exemplos e neutralizam os maus exemplos. Ao fazê-lo estabelecem o que pode ser aceitável e o que não pode.
Quinto: criar identidades positivas no trabalho gera melhores organizações. Como criá-las? Apostando nas forças psicológicas de cada um. A vida organizacional enfatiza com frequência o que pode ser melhorado. Faz sentido. Mas também pode procurar reforçar aquilo que já é bom.
Sexto caminho: identificar aqueles que inspiram e energizam positivamente os outros. Trata-se frequentemente de pessoas discretas. Procure-as, inquirindo a base da organização. Estes seis caminhos levam a melhores formas de organização, contribuindo para criar empresas mais resilientes, mais criativas e mais performantes.
Os pontos anteriores podem parecer à mente calejada uma lista de bons comportamentos, certamente admiráveis, mas impraticáveis no mundo do trabalho. Eis a razão da sua força: são difíceis de implementar em organizações normais. As organizações normais funcionam com base no medo e contêm doses de desconfiança que impedem a adoção destas boas práticas. Ou seja, mesmo que queiram ser positivas, muitas organizações normais continuarão a ser… normais. O óbvio pode ser dificilmente praticável. Já a normalidade desenvolve-se sem esforço particular. Isto é, cresce sozinha. É por isso que criar organizações positivas é duplamente meritório: não é para quem quer, é só para quem pode. E a sua organização caro leitor: quer? E pode?
Artigo de Miguel Pina e Cunha (Professor catedrático na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa), publicado no Jornal de Negócios de 27 fevereiro 2014.